“E não contaminarás a terra onde habito”
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A presença da proibição “não matarás” nos Dez Mandamentos significa que quem não a cumpre se retira do povo que fez um pacto com o Senhor. O que estava faltando nas ordens categóricas do Decálogo foi completado por outras palavras dos Cinco Livros da Lei, com complementações e explicações. Assim, por exemplo, a Lei justifica a proibição de derramar sangue, determinando que a humanidade foi criada na imagem do Senhor: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem” (Gênesis 9: 6). Outra justificativa se encontra no capítulo sobre morte acidental, de acordo com o qual sangue derramado contamina a terra: “...porque o sangue profana a terra” (Números 35:33). Assim a contaminação ameaça a continuidade da presença do Senhor entre o Povo de Israel: “Não contaminareis, pois, a terra na qual vós habitais, no meio da qual eu habito” (idem, versículo 34).
A Lei se esforça para implantar no Povo de Israel o conceito da santidade da vida, fazendo-o através da proibição de costumes enraízados. Assim, por exemplo, ela proíbe receber resgate em troca da vida do um assassino: “Não aceitareis resgate pela vida do homicida” (idem, versículo 31). Isto estava em contradição com os costumes no antigo Oriente.
Assim como os Cinco Livros da Lei, os Profetas e as Escrituras, não cessam de demonstrar sua profunda repugnação pelo homicídio. Assim, por exemplo, o profeta Ezequiel ridicula os que permanecem na terra após a destruição do Templo e exigem a propriedade sobre ela, acusando-os, entre outras coisas, de derramamento de sangue: “Comeis a carne com sangue, levantais os olhos para os vossos ídolos, e derramais sangue; porventura haveis de possuir a terra? Vós vos estribais sobre a vossa espada, cometeis abominações, e contamina cada um a mulher do seu próximo; e possuireis a terra?” (Ezequiel 33:26-27).
Vejam: duas vezes repetiu o profeta a acusação de derramamento de sangue (“derramais sangue, vos estribais sobre vossa espada”), para nos ensinar quão grave era este evento aos seus olhos.
Também o escriba do livro das Crônicas se volta sobre derramamento de sangue. Torna-se difícil para ele explicar o fato de que a Davi, Rei de Israel, a seu ver um personagem ideal, não foi concedido erigir o Templo. Ao contrário do escriba do livro de Samual, que considera o tema como um erro teológico de Davi, e também ao contrário do escriba do livro dos Reis, que exalta os feitos militares de Davi, o escriba do livro das Crônicas explica que o Templo não foi construído por Davi porque era um militar que tinha derramado muito sangue: “Tu derramaste sangue em abundância, e fizeste grandes guerras; não edificarás casa ao meu nome; porquanto muito sangue tens derramado na terra, na minha presença” (1 Crônicas 22:8 e também idem, 28:3). Deve-se notar que as Crônicas não criticam Davi pelas suas guerras (mas vejam idem, 17:7), mas não existe guerra sem derramamento de sangue e isto não está conforme com a edificação do Templo em nome do Senhor: Veja: não se trata aqui do assassinato de judeus, mas sim de guerra (que poderia ser justa) onde caíram judeus e não-judeus da mesma forma!
Na literatura judaica pós bíblica pode-se encontrar várias adições à proibição “não matarás” em alguns sentidos: proporcionando bases racionais à proibição, na percepção de sua enorme gravidade e no seu alargamento.
Quanto às justificativas, devemos trazer aqui as belas palavras de Filon da Alexandria, que no seu livro “Sobre os Dez Mandamentos” escreve: “O segundo mandamento é não matarás. Pois a natureza que fez o homem, o mais gentil dos seres vivos, como um ser social, exige que viva em comunidade, ou seja, para a amizade e a cooperação. Quem matar uma pessoa deve bem saber que ele destrói as leis e os princípios da natureza, que foram determinados para o bem e o benefício de todos. Assim, deve ele também saber que é culpado de furto, pois furtou a mais sagrada das dádivas do Senhor”. Na opinião de Filon, o homem pela sua natureza é uma criatura social, e qualquer dano mortal abala a cooperação entre os seres humanos. E também: um dano físico infligido numa pessoa é um ferimento na santidade da criação do Senhor. O rabino Saadia Gaon avançou outro argumento no seu livro “Uma Seleção de Crenças e Opiniões” (3:2): “Faz sentido evitar assassinatos entre os seres humanos para que não haja anarquia – e se matem uns aos outros”. Em outras palavras: um assassinato coloca em perigo a própria existência da toda a sociedade humana.
Quanto à gravidade, pode-se apontar algumas frases que foram atribuídas aos Sábios, e que apresentam o derramamento de sangue de um surpreendente ponto de vista teológico. Assim, por exemplo, ouvimos em nome do rabi Akiva que “quem derrama sangue assume o escrito como se tivesse reduzido a presença” (Gênesis 34:14) e de forma parecida no Mechiltá do rabino Ishmael: “Está escrito ´Eu sou o Senhor teu Deus´ e ao seu lado ´Não matarás´, significando que quem derrama sangue é como se tivesse reduzido a presença do Rei”. Em outras palavras, dano mortal infligido a quem foi criado à imagem de Deus é como se tivesse atingido o próprio Criador.
Quanto ao alargamento da proibição “Não matarás”, já a Mishná testemunha: “Portanto, o homem foi criado de forma singular, o que nos ensina que quem destrói uma alma é como se tivesse destruído todo um mundo”. A linguagem da Mishná não deixa lugar a dúvidas: quem mata, sem relação com a origem da vítima, é com se tivesse “destruído todo um mundo”. Um alargamento de outro tipo ouvimos nas traduções de Eretz Israel, antes da Independência de Israel, dos Dez Mandametos, que alargam a proibição “Não matarás” não apenas ao derramamento de sangue, mas mesmo à ajuda dada ao assassino: “Meu povo, os Filhos de Israel, não serão assassinos, nem os amigos ou auxiliares de um assassino” ( = o Povo dos Filhos de Israel não deverão ser assassinos, e nem amigos ou auxiliares de assassinos). Nesta direção também trilha o rabino Avraham Even-Ezra. Na sua opinião, “assassino” não é apenas quem mata com suas próprias mãos, mas também quem não evita um assassinato.
À luz destas considerações, deve-se censurar de forma categórica todos aqueles que em salas fechadas encontram justificativas e compreensão das “aflições” emanadas do assassinato de Yitzhak Rabin por Yigal Amir e do assassinato de dezenas de fiéis palestinos por Baruch Goldstein. Eles não têm ciência do fato de que esta compreensão é uma faca de dois gumes: pode-se assim “compreender” também as aflições dos perpetradores de atentados vindos do outro lado. A redação da ordem categórica “Não matarás” significa evitar uma “compreensão” deste tipo; e contra estas compreensões em nome do “amor por Israel” existem as escrituras na sua interpretação: “Não contaminais a terra em que vós habitais, pois o sangue contaminará a terra”.
O Prof. Rimon Kasher é professor na Universidade Bar-Ilan, Departamento da Bíblia e serve como Decano de Bibliotecas da universidade. Um de seus campos de pesquisa é sobre a literatura de profecias do final da era do Primeiro Templo e do início da era do Segundo Templo. Ultimamente publicou uma interpretação do Livro de Ezequiel (dois volumes) no quadro da série “A Bíblia de Israel”.