
A cristandade, que é mais nova que o judaísmo, afirma sua autenticidade e sua legalidade com a declaração que é o “novo povo de Israel”. O Senhor amava com certa força a Abraão e o escolheu, e como resultado, descobriu o Senhor que tinha escolhido um povo difícil e duro. O Senhor deu a Torá aos filhos de Abraão, com a esperança de que seus preceitos ajudem a educar os judeus em ser seres espirituais, que construam o Reino do Senhor na história. Esta foi uma experiência do Senhor.
A cristandade afirma que esta experiência do Senhor falhou e a prova disto está em que os judeus foram exilados: o Senhor os exilou da Terra Prometida. A cristandade afirma que quando o Senhor viu que não podia redimir a humanidade através dos preceitos divinos, Ele abandonou Suas exigências sobre a humanidade. Assim a cristandade desenvolveu uma teologia nova, de acordo com a qual o amor do Senhor, Sua presença pessoal e Suas ações seriam trazidos à humanidade em estado de graça, trazido pela redenção. Paulo o mensageiro declara que a Torá é a fonte da culpa. Leis criam um sentimento de falta, a perfeição é um desafio com o qual não podemos nos defrontar. A cristandade criou uma concepção que o amor do Senhor redime a humanidade e se chamou de “novo povo de Israel” – a herdeira do relacionamento especial entre o Senhor e a humanidade. “O antigo povo de Israel”, disse a Igreja, está morto. A aliança com o Senhor está cancelada.
Sob o ponto de vista cristão, a existência do povo judeu não está mais justificada pelo conteúdo espiritual. A cristandade considerava de importância capital a Torá, os Profetas e as Escrituras (a Tanach), mas rejeitava o Talmud, fruto intelectual de milhares de anos de observação espiritual e de estudo, isto porque tudo o que vinha após a destruição do Templo, depois que o Senhor tinha rejeitado o povo judeu, não tinha importância. Assim, por dois mil anos, os judeus andaram pelos caminhos da história como não-povo. Os judeus sobreviveram, mas foi negada a eles toda verdade espiritual.
Uma vez, quando eu lecionava no Departamento de Religiões de uma universidade canadense, fui perguntado se eu acredito no Velho Testamento. Respondi: “Não, eu acredito no Novo Testamento” – “Mas você é um rabino, como pode você acreditar no Novo Testamento?” – Respondi: “Desculpe, vocês usam os conceitos de “velho” e “novo” como expressões de valor, não como teorias. “Velho”, na sua concepção, significa algo que tinha valor no passado, mas como vocês vêm, eu vejo a minha Torá não como uma aliança passada, mas como a aliança nova e viva que continua a obrigar”.
Permita-me enfatizar, que é impossível compreender a identidade judaica e a história judaica sem compreender a dor que acompanha os caminhos da história, para provar o direito da existência. Da mesma forma, é impossível compreender a experiência moderna de Jerusalém, que é novamente parte do Estado Judeu, sem passar pela experiência da dor dos caminhos da história como uma criança bastarda do ponto de vista espiritual.
Durante todo o tempo em que sofremos, todo o tempo em que sobre o povo judeu foi colocada a desgraça do exílio pelo Senhor, existia para a cristandade uma razão básica para sua posição teológica, como “novo povo de Israel”, com o qual o Senhor fez uma nova aliança. Mas aqui está esta mesma congregação, supostamente desprezada pelo Senhor, que surge das sombras da história e age com um largo campo de visão do mundo, dizendo: “Vejam a nós, estamos aqui, realmente estamos vivos!”.
Mas, diz a cristandade, o que fazem vocês? Vocês não deveriam estar aqui! De certa forma, a cristandade poderia concordar com a existência do povo judeu em Tel Aviv. A cristandade poderia interpretar o grande crescimento da cidade como uma evolução secular. Poderia se classificar Tel Aviv como um produto sionista e nacionalista. Mas quando os judeus retornaram a Jerusalém, quando a cidade foi unida depois da Guerra dos Seis Dias e os judeus encheram as ruas da Cidade Sagrada com sua presença física, a teologia cristã foi colocada frente a um fato que não poderia ser absorvido: o judaísmo retornou como uma força viva na história.
Às vezes penso que os maiores contribuintes para o diálogo atual entre os judeus e os cristãos não são os filósofos e os teólogos, mas sim os judeus e os cristãos que vivem e moram na rua de Jaffa e na rua Ben Yehuda. Com nossa presença física, nós os judeus forçamos um diálogo de confronto com a cristandade. As estreitas ruas cheias de gente transmitem uma mensagem espiritual: nós obrigamos a cristandade a refazer sua teologia. É impossível nos reduzir à definição superficial dada pela cristandade.
Em Jerusalém declaramos que somos uma nação viva, uma realidade que a cristandade deve enfrentar. Este confronto tem importância, porque este é o símbolo do Reino do Senhor, um símbolo do relacionamento do Senhor com a humanidade. Todo o tempo em que os judeus estavam ausentes de Jerusalém, podia a cristandade negar que o judaísmo tinha um valor espiritual verdadeiro, mas agora eles formam uma presença viva em Jerusalém e a cristandade necessita enfrentar uma fé viva e repensar a sua teologia.
Está claro para vocês por que no profundo e difícil confronto teológico a cristandade declara sua recusa de reconhecer Jerusalém como judia, porque uma Jerusalém judia significa o retorno de um povo vivo e cuja identidade não repousa apenas nas perseguições e no anti-semitismo, mas sim na memória histórica da justiça e de todas as visões e sonhos do futuro judeu. Jerusalém declara que o judaísmo, e não apenas os judeus, voltaram de forma concreta para a história. Esta declaração está na base da natureza da afirmação que a Torá de Israel é o Novo Testamento.
Também o mundo islâmico encontra dificuldades em aceitar que os judeus retornaram a Jerusalém e pretendem ficar lá. As fortes exigências dos países árabes de que Jerusalém não seja uma cidade judia se origina numa série de razões emocionais e políticas, apoiadas umas nas outras. Basicamente, eles se recusam a reconhecer o direito dos judeus de viver no Oriente Médio. O mundo árabe afirma que os judeus são um elemento estranho trazido ao Oriente Médio em função do Holocausto. Como os árabes não estão relacionados com o Holocausto europeu, eles não devem receber o fardo dos judeus da Europa, que “invadiram” suas terras como resultado desta tragédia. Na opinião árabe, Israel é um instrumento do imperialismo ocidental, uma criação da ONU e o mundo ocidental sentia um sentimento de culpa em relação aos judeus, e assim, os judeus de Israel são estrangeiros e, portanto pode-se negar sua existência, também após as vitórias de Israel ao longo dos 26 anos que se passaram. Mesmo assim, os árabes continuam a se recusar em reconhecer e negociar com Israel.
Se os árabes reconhecerem Jerusalém como uma cidade judia, eles teriam que confessar que os judeus não foram trazidos no século XX para o Oriente Médio. Aceitar as declarações dos judeus sobre Jerusalém significa reconhecer o retorno dos judeus a Israel, não como fenômeno de pós-Holocausto, mas como a concretização de sonhos milenares.
Qual a base para a presença dos judeus em Jerusalém? Dois mil anos dizendo a frase “No ano que vem em Jerusalém”, não “Ano que vem em Tel Aviv”, ou “Ano que vem em Haifa”, mas sim “Ano que vem em Jerusalém”.
Todos os anos na noite do Seder de Pessach os judeus lembravam seu passado histórico e sonhavam com a visão da esperança – estar no ano próximo em Jerusalém. Este sonho tinha a força de os manter como um grupo vivo por muitas gerações, em todos os cantos do mundo. Não se engane, Israel não é apenas uma criação de Theodor Herzl, de Chaim Weitzman, do sionismo do século XX ou do Holocausto e da ONU. Israel é uma criação de centenas de mães judias que ensinaram seus filhos a sonhar com Jerusalém. O sionismo é uma decisão da consciência do povo judeu de transformar este sonho em realidade.
Em Jerusalém o povo judeu encontra hoje suas memórias. Em Jerusalém o povo judeu encontra sua identidade histórica. Sem Jerusalém o judeu não tem passado e perde sua memória histórica. O passado proporciona as raízes de sua identidade judaica no presente e o florescimento dos sonhos para o futuro. Toda vez que o judeu visita o Muro Ocidental e toca as frestas entre suas pedras antigas, ele descobre que tem mais de dois mil anos. Jerusalém conta ao povo judeu onde se encontram suas raízes. No por do sol os jerusalimitas reconhecem o povo judeu na sua verdadeira idade e recobram a sua juventude.
Se os países árabes reconhecessem o caráter judeu de Jerusalém, elas teriam entrado em negociações, não com estranhos à terra, mas com um povo com suas raízes nela. Este reconhecimento obrigaria uma nova compreensão entre os árabes e os judeus. Esta é a razão pela qual a demanda dos judeus sobre Jerusalém está baseada num complexo problema para os países árabes e para o mundo islâmico, e ao mesmo tempo cria oportunidades de um verdadeiro encontro entre eles e os judeus.
O artigo “A Polêmica Teológica Sobre Jerusalém” é uma tradução resumida de um artigo em inglês do Rabino David Hartman. O artigo foi traduzido para o hebraico pelo Dr. Abraham Shafir e a versão traduzida apareceu pela primeira vez na “Página De cultura Judaica 71” em 1977, edição do Departamento de Cultura Judaica do Ministério da Educação, Cultura e Esportes de Israel.